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02 outubro, 2013

Pouca Fala

Como é fácil dizer. É abrir a boca
e deixar que se livre, como um rio
perdido de si mesmo, o desvario.
Aprendi: toda vez que deixo a boca
entregar-se à aventura da verdade,
não demora a traição da liberdade
me devolve a palavra desalada.
O tempo é o do fazer silencioso
e um pouco de canção, brasa que o azul
do sonho que trabalha vai lavrando.
Como a terra que abriga e dá caminho
a um sonho de semente que não sabe
que abre um rastro de luz na escuridão.

  (Thiago de Mello)


01 agosto, 2013

Salexistência

Salário

Sal

salga meus sonhos
meus olhos


Sal

que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência

A vida por um salário
salexistência
O sal da terra
salga-nos os ossos.

(De Primeiros fragmentos)

Tenório Telles

06 abril, 2013

Predestinação



— Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!
E ela:
— Deus te ouça, minha mãe…
Deus te ouça…

Ascenso Ferreira




A humanidade progride, luta pela perfeição. Tudo que agora está fora de nosso alcance um dia será compreensível e trivial; só que é preciso trabalhar, ajudar com toda nossa força aos que procuram soluções. Aqui na Rússia, por enquanto, são muitos os que falam, poucos os que trabalham. Os intelectuais que conheço não procuram nada, não fazem nada; ficam doentes só com a ideia de qualquer esforço. Intitulam-se humanistas, mas tratam os criados como inferiores e os camponeses como animais. Não sabem coisa alguma, não querem aprender nada, não leem nada a sério e nunca fazem nada. O que falam sobre ciência é ridículo e seu conhecimento de arte pouco mais que zero. São todos muitos sérios, usam caras profundas, discutem assuntos impenetráveis, fazem especulações filosóficas incontestes, e não veem que em volta, todos – 95 por cento do povo – vivem como selvagens, se insultando e estraçalhando à menor provocação. Comem lixo podre, dormem na imundície e na umidade, trinta ou quarenta no mesmo quarto cheio de percevejos, fezes, fedor e consequente degradação moral. É evidente que todos nossos belos discursos só têm uma função – enganar nós mesmos. Me digam onde é que estão essas creches de que se fala tanto? E as bibliotecas? E a habitação popular? Essas coisas só existem em novelas – na vida real eu nunca vi. Eu só vejo a desordem, a sujeira, a vulgaridade e a preguiça asiática. Eu temo e desprezo as caras austeras e os que falam com solenidade. Todos faríamos muitos mais calando a boca.”

TCHÉKHOV, Anton. O Jardim das Cerejeiras / Tio Vânia. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 45-46
 

20 março, 2013

Busco uma luz no fim
                    do túnel...
Minha energia foi  C O R T A D A.